quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O OLHAR DA IMPRENSA SOBRE O VÔLEI FEMININO: QUANDO A SOMBRA SE DESTACA



História da Educação Física
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Professora Elaine - Realizado em 2010/1
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Artigo Elaine at al fragmentado
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Por: Lino Carvalho - Face:Lino.Ufrj - Insta: @Linosfit - @UoLinosFit - CariocaLino
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O OLHAR DA IMPRENSA SOBRE O VÔLEI FEMININO: QUANDO A SOMBRA SE DESTACA

Elaine Romero – EEFD/UFRJ - NEPESS/UFF
Erik Giuseppe Pereira UFRJ
Karen Barsaglini Sampaio Sant'Anna - Acadêmica EEFD/UFRJ
Ana Miragaya – ESPM-RJ
Grupo de Estudos de Gênero e Práticas Corporais
EEFD/UFRJ

RESUMO. A imprensa esportiva, ao fazer a cobertura fotográfica do vôlei de quadra, evidencia um tratamento diferenciado entre atletas masculinos e femininos. Pode-se dizer que a imprensa tem atuado como forte elemento para ressaltar atributos físicos de mulheres neste esporte, e ao mesmo tempo tem sistematicamente ocultado-lhes a visibilidade atlética. Diante do quadro o propósito do estudo foi proceder à análise da cobertura das finais da Superliga de vôlei de quadra feminino. Reunimos as fotos divulgadas no Caderno de Esportes de um do jornal de alta circulação no país, durante a disputa do título pelas equipes do Osasco/SP e do Rexona/RJ, realizada nas duas cidades no ano de 2007. As análises das imagens permitiram levantar os seguintes dados: a) as mulheres não são fotografadas durante a execução do saque; b) não são exibidas fazendo levantamentos ou defesas individuais; c) as atletas dos times adversários são exibidas simultaneamente cortando/bloqueando com a rede cobrindo-lhes o rosto; d) as fotos, na expressiva maioria, mostram as atletas de costas cortando ou bloqueando, sugerindo as formas corporais femininas, buscando um erotismo ou fetiche como mercadoria de consumo. Os resultados sugerem que a cobertura jornalística faz julgamentos velados de beleza, e as atletas, quando não correspondem ao padrão vigente convencionado pela mídia, são retratadas à sombra, ou seja, ou com foco distante, ou com a rede como tarja para ocultar-lhes a visibilidade facial. 


Palavras chaves: história da Educação Física; gênero; mulheres atletas, imprensa esportiva; voleibol

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THE LOOK OF THE SPORTS PRESS AT WOMEN’S VOLLEYBALL: WHEN THE SHADOW PLAYS THE MAIN ROLE

ABSTRACT. When the sports press covers women’s volleyball through photographs, it clearly shows that men and women athletes have a different treatment. It is possible to observe that at the same time that the press has been making visible physical attributes of women athletes, it has been hiding women’s athletic performance. The objective of this study was to analyze of the media coverage of the finals of the women’s volleyball Superliga in Brazil. The photographs analyzed were taken from the sports pages of high circulation newspaper in Brazil during the competition for the Superliga title by the teams: Osasco/SP and Rexona/RJ, which took place in Rio de Janeiro and São Paulo in 2007. The analyses of the images showed the following results: a) the women athletes were not photographed while serving; b) the women athletes were not shown individually either digging or defending; c) the women athletes of the opponent team were shown simultaneously attacking/blocking with the net covering their faces; d) most of the photographs displayed the backs of the athletes when they were attacking or blocking, suggesting their bodily contours as if the camera were looking for some eroticism or fetishism as consumers’ merchandise. The results of the research suggest that this coverage implied judgments of beauty patterns so much so that whenever the women athletes’ bodies did not correspond to the pattern that had been pre-established by the media, the women athletes were shown in the shadow, i.e. they were shown at a distance or with the net over their faces to ‘hide their visibility’.


Key words: history of physical education; gender; women athletes; sports media; volleyball.


CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

    O esporte, desde suas antigas raízes históricas, vem sendo ao mesmo tempo, um terreno fértil da produção social da masculinidade, e também uma poderosa instituição que reproduz simbolicamente, os relacionamentos patriarcais existentes. Pela retrospectiva da Educação Física brasileira, a mulher, por ser vista como um ser frágil, não podia fazer educação physica, posto que a moça de família, de acordo com os bons costumes do final do século XIX e início do século XX, mostrava sua decência ao vestir-se, e pentear-se, pelo nome da família, sobretudo, pelo comportamento recatado. A mulher não deveria jamais suar em público na época e a prática de exercícios era abominável posto que era considerada uma atividade destinada aos homens como parte integrante de sua virilidade, robustez e força moral e física.
    Desde a Grécia Antiga, quando a participação feminina era vetada nos principais Jogos, a mulher, numa área de reserva masculina, teve que abrir e 

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trilhar caminhos com seus próprios meios. Desse modo, reportando-nos aos principais jogos históricos, realizados sempre em homenagem a um deus masculino, havia restrição à participação feminina. Dentre esses jogos citamos os Olímpicos, realizados de quatro em quatro anos em homenagem a Zeus, em Olímpia, desde 776 a. C., cujo prêmio maior era uma coroa de louro e um ramo de oliveira. Os Jogos Píticos eram realizados também de quatro em quatro anos, em Delfos, desde 582 a. C., em homenagem a Apolo; e os vencedores eram coroados com louros. Os Jogos Ístmicos, disputados de dois em dois anos, rendiam tributo ao deus Poseidon, na cidade de Corinto, desde 581 a. C., e sua premiação consistia numa coroa de aipo. Os Jogos Nemeus, com intervalo de dois em dois anos, transcorriam em Neméia, desde 573 a. C., e surgiram para render tributo à façanha de Heracles, filho de Zeus, e tal qual os anteriores,  premiavam os vencedores com uma coroa de aipo (BARROS, 1996; GUTIERREZ, 1980; MIRAGAYA, 2006).
    As mulheres tinham seus próprios Jogos, os Heraicos em homenagem à deusa Hera, que eram realizados em distintas cidades da Grécia. No local, os Jogos eram realizados inicialmente a cada três anos, e depois a cada cinco, com  uma única prova -  uma corrida de 162m. Elas corriam com os pés descalços e com uma vestimenta que alcançava os tornozelos. Como prêmio, as vencedoras recebiam uma coroa de oliveira e um pedaço do animal, que havia sido sacrificado em honra à deusa (SMITH´S DICTIONARY, 1875 – 2007). Os homens, de acordo com Pereira (1988), além de provas variadas, possuíam naquele tempo, inclusive, dirigentes, os gimnnastai, cargo semelhante aos atuais presidentes de clubes esportivos, com postos de caráter honorífico.


Fig. 1 Imagem representativa de mulheres em prova de corridas onte: Miragaya (2006)

    A cultura física tinha espaço marcante no universo grego, tanto que em casa, era comum os homens praticarem exercícios em conjunto entre amigos. Tal qual numa atividade social dos dias de hoje, os homens gregos reuniam-se para a prática de exercícios, e essa atividade social era praticada até idades mais avançadas. O objetivo de tal prática era que os homens cultivassem as qualidades masculinas desejáveis para a época: que eles fossem fisicamente 

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fortes, velozes e ágeis. Nesse cenário ficavam excluídas as mulheres, sobretudo, as atenienses, que viviam numa esfera privada, com o corpo coberto e pouco eram vistas fora de casa, no espaço público. Elas não tinham acesso a competições atléticas para não serem expostas. Mesmo as espartanas, que podiam ter vida pública, e que eram treinadas desde cedo para tornarem-se mulheres fortes e gerarem filhos fortes, não participavam desse tipo de atividade “social” junto aos homens. As qualidades desejáveis às mulheres consistiam na passividade, modéstia, castidade, pureza, obediência, comportamento recatado e capacidade reprodutiva.
    Miragaya (2006) relata que a inserção da mulher nos Jogos Olímpicos, quer da  Antigüidade, quer da Modernidade, foi a duras penas. Relata a autora que Stamatha Ravithi, teria sido a primeira participante da Maratona. Segundo seus escritos, Stamatha havia ouvido falar de que haveria uma corrida com premiação em dinheiro. Pobre e mãe de cinco filhos viu aí a possibilidade de um ganho extra para o sustento dos seus. No entanto, ela foi ludibriada; informaram-lhe de forma errônea a data da prova atlética, e ela, sem saber, correu o percurso, que foi anotado por jornalistas da época. Mas, como correu no dia seguinte ao da maratona oficial (masculina), não recebeu o prêmio almejado.
    Contudo, registros históricos dão conta que algumas mulheres participaram dos Jogos Olímpicos, não pessoalmente, mas por intermédio dos aurigas, os condutores das quadrigas - carros puxados por quatro cavalos, cujas proprietárias eram mulheres (BARROS, 1996; MIRAGAYA, 2006). Podemos depreender que elas foram vencedoras não por disputarem as provas, mas por serem elas as proprietárias das quadrigas. Miragaya registra que a princesa espartana Kyniska de Archidamos teria sido a primeira vencedora da prova hípica nos Jogos Olímpicos da Antiguidade. Estes concediam privilégios aos vencedores como: uma coroa feita de folhas de oliveira, um dos símbolos da Grécia, estátua em praça pública do ganhador, despesas pessoais de alimentação pagas pelo poder público, lugares privilegiados em teatros, isenção de impostos e taxas, além de altos postos no governo.

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    Como consequência dessa situação, Miragaya aponta que foi desenvolvida a cultura do vencedor herói disseminada nos textos teatrais e na literatura de forma épica – no início na poesia e no drama, e, posteriormente, na ficção. Em relação às mulheres, sua exclusão nos Jogos pode ser atribuída pelo fato de uma orientação cultural masculina, pelo aspecto religioso (os deuses homenageados eram homens), por propósitos militares, uma vez que as espartanas eram treinadas para gerarem filhos fortes, também pelo fato de não haver tradição escrita para os feitos femininos, pela relação esporte e poder e finalmente pela segregação das mulheres aos Jogos.
    Os Jogos Olímpicos da Modernidade ressurgiram por esforços de Coubertin, embora Miragaya registre vários pioneiros que lhe antecederam, como Dover na Inglaterra, Schartau, na Suécia, Brookes na Inglaterra e Zappas na Grécia. As empreitadas desses precursores se deram entre os anos de 1612 a 1889. Entretanto, registros mais recentes dão quase que exclusivamente ao Barão Pierre de Coubertin todo crédito pela criação dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Ele fundou o Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1894 e os primeiros Jogos ocorreram em Atenas em 1896.
    Embora Demetrius Vikelas tenha sido o primeiro presidente do COI, de 1894 a  1896,  Pierre de Coubertin foi quem maior tempo esteve à frente do Órgão, presidindo-o de 1896 a 1925. Suas ações foram sempre no sentido de evitar, mas não proibir, a participação feminina. Não admitia que as mulheres pudessem disputar, ao lado dos homens o esporte, que na sua visão, era uma prática masculina, tal qual o pensamento dos gregos antigos. De acordo com os dados de Miragaya (2006), a influência britânica na educação de Coubertin pesou na sua maneira de pensar e nas suas decisões. Educado no último período vitoriano, em que a figura feminina era bem demarcada pela submissão, pela dependência financeira masculina, pelo seu destino biológico (a reprodução). Assim, Coubertin entendia que a vida da mulher deveria resumir-se à esfera privada, pois se supunha ser ela um apêndice do homem. Para o pensamento vitoriano, em relação aos esportes, a mulher era considerada um ser incompleto, e não era admissível que suasse em público. Como poderia Coubertin admitir que as mulheres participassem dos esportes olímpicos?
    A primeira participação feminina em Jogos Olímpicos se deu em 1900, com registro oficial de 22 participantes em seis modalidades apenas. Com o tempo, houve um gradativo acréscimo de modalidades que culminou com a inclusão do 

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atletismo feminino nos Jogos Olímpicos em 1928. Essa participação pode ser creditada aos esforços políticos empreendidos por Alice Milliat, a primeira presidente do clube “Femina Sport”, em 1915, e que se tornaria a presidente da Federação das Sociedades Esportivas Femininas da França - FSFSF, em 1919, quando iniciou um movimento para incluir o atletismo feminino nos Jogos, porém somente conseguiu a inclusão de 5 modalidades em 1928 em Amsterdam. Milliat deu exemplo de empreendedorismo olímpico (MIRAGAYA, 2006), uma vez que fundou a primeira federação internacional de esporte feminino e iniciou os Jogos Mundiais Femininos, equivalentes aos Olímpicos, conseguindo reunir mais de 20.000 espectadores em sua primeira edição em 1922 em Monte Carlo. É possível observar então que as mulheres, especialmente as atletas, passaram através dos séculos da restrição à esfera privada da casa à condição oposta de atletas que competem num estádio e que arrastam multidões no início do século XX.
    Podemos observar diacronicamente um quadro generificado no esporte e essa situação não só fica restrita às atletas, mas às dirigentes femininas, ao quadro de arbitragem, e em toda a engrenagem que faz o esporte mover-se, sobremaneira do esporte de alto rendimento. Para sua visibilidade, a atuação da mídia é marcante, especialmente, porque é sabido que o esporte é responsável por contratos milionários além de que os direitos de imagem geram lucros inimagináveis. E como menciona Tambucci (1997, p. 12), “se investimentos em eventos e competições esportivas não fossem um excelente negócio [...] não atrairia as dez grandes empresas patrocinadoras oficiais dos Jogos Olímpicos [...]”. O esporte e a publicidade, prossegue o autor, possuem uma intrínseca e constante relação de troca.
    Adentrando no mundo dos negócios, e na esfera econômica, é bom lembrar que estamos pisando num reduto masculino, em sua expressiva maioria e em se tratando de eventos esportivos, os Jogos Olímpicos, praticamente todos nas mãos masculinas, tornaram-se um negócio bilionário. Nesse contexto, estamos articulando o esporte de alto rendimento e a mídia esportiva, especificamente, a cobertura da imprensa esportiva no esporte feminino. Verificamos que o advento da mídia, inicialmente impressa através de fotografias, mídia televisiva e virtual através de seus múltiplos meios, carreia a imagem, agora extremamente mais do que pública, das mulheres atletas para todo o planeta mantendo padrões ainda subordinados a uma hegemonia masculina que ‘legisla’ sobre o que se quer ver.

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    É inegável o poder da mídia em todas as esferas e os últimos acontecimentos políticos advindos dos poderes democraticamente instituídos são exemplo desse poder. Como instituição que detêm uma parcela expressiva desse poder, a mídia pode ser encarada como um elemento constituinte das representações da sociedade sobre a participação das mulheres na vida pública e esportiva. Nessa engrenagem, “o importante passou a ser a manutenção dos atletas e de seus patrocinadores na vitrine” (TUBINO, 1997). Qual a melhor forma senão exibir os corpus esportivus?  O corpo é o mais completo texto cultural criado e recriado pelo homem, escreve Quevedo (2003), e argumenta a autora que como um texto cultural não se espera uma única leitura. Como assinala Andrade (2003), o corpo está em constante aprendizado com o outro na relação e na interação. Esse outro pode ser materializado pela mídia de um modo geral e dos modelos idealizadores que ela apresenta.
    Tentando compreender como a mídia nos ensina a relacionarmo-nos com o mundo, podemos dizer que temos observado que as fotos veiculadas em diversos jornais brasileiros sinalizam tratamento diferenciado entre as diversas modalidades esportivas. Algumas delas sequer merecem destaque e, quando muito, uma pequena nota, e outras modalidades não são mencionadas, mesmo tendo disputas internacionais. Essa situação, na análise de Tubino, reflete o paradigma do negócio no esporte, que tem provocado revisão no quadro esportivo, empurrando para o ostracismo, as modalidades que não apresentam em seus eventos, o espetáculo.
    A imprensa adjudica para si a divulgação de imagens e textos que tendem a causar impacto no leitor, que admira e se identifica com o esporte. Assim, jogadas, passes, gols, e outras situações no futebol masculino, por exemplo, tem público cativo. Em relação aos atletas dos demais esportes, o tratamento, é diferenciado; os homens sob os holofotes nos seus feitos e performances atléticas e as mulheres exaltadas pelas suas formas corporais. Por meio dessa prática, a imprensa esportiva exerce um papel de destaque no qual segundo Forsyth (2003), a cultura midiática constrói e renova, de forma implacável, a imagem de feminilidade nos dias atuais. Na avaliação da autora, a mídia e outras vozes das sociedades patriarcais ensinam às mulheres, independentemente da idade, como devem se ver, a tal ponto de  aceitarem docilmente o mito da beleza disseminado e incansavelmente repetido. Como conseqüência, adverte Forsyth 

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que esse mito patriarcal constitui-se num risco à saúde física e mental das mulheres bem como as priva de uma identidade autônoma.
    No translado dessas idéias à cobertura de esportes como o voleibol, por exemplo, é nítido o tom de diferenciação entre as imagens veiculadas da equipe masculina e da feminina. Na esteira de Andrade, é possível identificar diversas pedagogias atuando no meio esportivo ensinando-nos como nos relacionar com as coisas do mundo. São nessas relações que se constroem os gêneros. Nesse entendimento, podemos dizer que a imprensa esportiva tem atuado como forte elemento para ressaltar o corpo feminino – os seus atributos físicos no esporte de alto rendimento e, ao mesmo tempo, tem sistematicamente lhes ocultado a visibilidade facial e atlética.
    Inserindo essa problemática no âmbito dos estudos sócio-culturais das práticas culturais e esportivas, reportamo-nos aos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (BRASIL, 1997), cuja estrutura contempla a área da Educação Física (p. 9), e observamos que sua proposta de trabalho volta-se para a cultura corporal. Engendrando o tema do presente trabalho com os propósitos da Educação Física, podemos asseverar que a comunicação mediada tecnologicamente contribui na construção e reconstrução de representações culturais, que são compartilhadas na sociedade contemporânea. Representação é uma palavra chave para articular as concepções e as práticas do corpo em movimento no esporte de alto rendimento num “espaço pedagógico” onde o poder é organizado e difundido (ANDRADE, 2003). As transformações advindas das tecnologias de comunicação repercutem na Educação Física, e partilhando da interpretação de Pires et al (2006), o teor dos PCN trata de forma científica e pedagógica da manifestação da cultura.
    Entendemos que a cultura, conforme sublinha Laraia (2002), apoiado na contribuição de Krober, destaca-se por determinar, mais do que a herança genética, o comportamento do homem, o que viria a justificar suas realizações. Nessa engrenagem, o ser humano resulta do meio cultural em que foi socializado. Em se tratando da articulação mídia, esporte e cultura corporal, não fica difícil compreender a assertiva de que o esporte reproduz simbolicamente os relacionamentos patriarcais existentes, reforçando a superioridade masculina, bem retratada nas fotos esportivas que ilustram os cadernos voltados ao público que aprecia eventos dessa natureza. 

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    Consideramos oportuno aprofundar um tema ainda pouco explorado nas Ciências do Movimento Humano, ou da Motricidade Humana, destacando desse modo uma lacuna no conhecimento, apesar da constatação de Pires et al (2006). Eles verificaram que, em meados da década de 1990, a produção em Educação Física e Mídia foi impulsionada pela criação de fóruns e grupos de trabalho nas sociedades científicas brasileiras. Como resultado, houve crescimento da produção a partir do ano 2000. Neste cenário não estão considerados os estudos e a (escassa) produção que trata das questões que envolvem gênero e mídia esportiva, o que evidencia nessa lacuna, a relevância do presente estudo.
    Por outro lado, a par do ponto de vista de Monique Pires (2006), entendemos que estamos tendo a oportunidade, numa perspectiva feminista, de fornecer elementos para desconstruir toda uma história aprendida durante anos sob a ótica generificada. É a perspectiva de trazer para o centro da academia e da comunidade científica os conceitos elaborados pelas historiadoras feministas negando discursos que afastaram as mulheres da produção em que elas deixaram de figurar como sujeito político/objeto de estudo. A contribuição ao debate emerge das linhas que assinamos.
    Diante do quadro exposto somos motivados a proceder uma análise, na ótica do gênero, como categoria relacional,  da cobertura das finais da Superliga de vôlei de quadra feminino. Tomamos aqui as principais idéias de Scott (1995, p. 89), que nos aponta que o gênero fornece-nos um “meio de decodificar o significado e de compreender as complexas conexões entre as várias formas de interação humana”. Percebe a historiadora que ao falar de gênero, refere-se ao discurso da diferença dos sexos. Suas idéias têm sido elaboradas e trabalhadas por diversas pesquisadores/as.
    Para essa empreitada reunimos as fotos divulgadas pelo Jornal O Globo (Caderno) de Esportes, durante a disputa do título pelas equipes do Osasco/SP e do Rexona/RJ, realizada nas duas cidades em 2006 e início de 2007. O periódico é de alta tiragem (não declarada) e grande circulação em todo país. Detivemo-nos, portanto, a analisar criticamente as imagens (fotos) e textos (legendas) veiculados. Para Pilotto (1999) com suporte em Faiclough, o texto, como artefato cultural, exibe imagens visuais que legitimam determinadas 

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representações e é atravessado por discursos, que definem, constroem, e posicionam os seres humanos, construindo verdades sobre o mundo. Prossegue a autora que a análise crítica do discurso (visual) desarticula e critica os textos como uma forma de quebra do senso comum. Em suma, ela não apenas tece comentários sobre o que é dito, mas considera o que não é dito – as ausências.
    Entendemos que a imprensa ensina várias formas de olhar o corpo e esse olhar é oriundo de uma cultura patriarcal dado que a esmagadora maioria da imprensa esportiva é composta por homens. É uma pedagogia cultural, que no entender de Campos (2006) vem a ser uma área pedagógica que abrange locais onde o poder é organizado. No caso presente o jornal, que por meio dessa pedagogia constrói e constitui identidades, discursos e representações do corpo atlético feminino. Nesse processo, o discurso midiático influi na acrítica assimilação dos corpos expostos. São corpos exibidos em fotos em que o rosto das atletas é ocultado. O que interessa é mostrar o padrão de feminilidade, preferencialmente em trajes sumários, com ênfase nos glúteos, como se a identidade das atletas estivesse sobretudo, no corpo que ostenta formas ditas perfeitas. Em outras palavras, como denunciam Andrade (2003) e também Pires e Mól (2003), as fotos exibem mais o corpo e seus contornos como desejáveis a todos os corpos. O rosto da atleta, já não tem tanta importância.....
    Justificamos a escolha da etapa final da competição posto que foi neste momento que o vôlei feminino ganhou a atenção da imprensa esportiva. Com este estudo estamos apresentando um recorte de uma pesquisa maior – “A hierarquia de gênero no espaço escolar e no ambiente esportivo” – contemplada no Edital CNPq 45/2005, na qual a maior parte dos autores participou.

REFERÊNCIAS

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Baixar Pdf:  https://www.4shared.com/s/fmxBdTWfTea

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