RUMO A UMA NOVA DIDÁTICA
Bibliografia:
CANDAU. Vera Maria. Rumo a uma nova didática. 4ª Ed. Ed Vozes. Petrópolis, 1988.
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1
A revisão da didática
No trabalho que apresentei no 1 seminário: A Didática em questão (Candau, 1984), depois de uma análise da trajetória da didática no brasil no últimos vinte anos, concluí afirmando:
"Este é, a meu ver, o desafio do momento: a superação de uma Didática exclusivamente instrumental e a construção de uma didática fundamental" (p. 21).
É nesta perspectiva que procuro me situar e, a partir desta posição, buscar caminhos para a construção ou reconstrução da Didática. Através de toda a discussão daquele seminário, esta preocupação esteve presente. O que tentarei fazer é explicitar os elementos que poderão fornecer ferramental de trabalho mais concreto para este esforço coletivo de repensar a Didática.
1.1. O que é necessário superar: uma didática exclusivamente instrumental.
A Didática, numa perspectiva instrumental, é concebida como um conjunto de conhecimentos técnicos sobre o "como fazer" pedagógico, conhecimentos estes apresentados de forma universal e, consequentemente, desvinculados dos problemas relativos ao sentido e aos fins da educação, dos conteúdos específicos, assim como do contexto sociocultural concreto em que foram gerados. De alguma forma, explícita ou implicitamente, esta concepção está informada pela tentativa de comenius de propor" um artifício universal para ensinar tudo a todos".
Perpassa esta visão o pressuposto da neutralidade cientifica e técnica, como se a ciência pudesse ser adequadamente compreendida, tendo por referencia exclusiva a sua coerência interna, sem levar-se em conta também o contexto histórico da produção cientifica e suas implicações. Hoje é fortemente enfatizada, por diferentes autores, a referencia ético-social do conhecimento cientifico e das técnicas dele derivadas.
A necessidade de superação da perspectiva instrumental foi muito assinalada no 1 Seminário:
" A Didática passa por um momento da revisão crítica. Tem-se a consciência da necessidade de superar uma visão meramente instrumental e pretensamente neutra do seu conteúdo. Trata-se de um momento de perplexidade, de denuncia e anúncio, de busca de caminhos que tem de ser construídos através do trabalho conjunto dos profissionais da área com os professores de primeiro e segundo graus. É pensando a prática pedagógica concreta, articulada com a perspectiva de transformação social, que emergirá uma nova configuração para a Didática" (Candau, 1983, p.198).
1.2. A Construção de uma didática alternativa: A didática fundamental
Se este é o desafio, torna-se urgente definir as principais características que deverão informar esta reconstrução da Didática.
A primeira, aquela que constitui o ponto de partida que deve informar todo o esforço a apreender, é a multidimensionalidade do processo de ensino-aprendizagem:
" A perspectiva fundamental da Didática assume a multimensionalidade do processo de ensino-aprendizagem e coloca a articulação das três dimensões, técnica, humana e politica, no centro configurador de sua temática" (Candau, 1984, p.21).
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Nesta linha, a competência técnica e o compromisso político se exigem mutuamente e se interpenetra. Não é possível dissociar um do outro. A dimensão técnica da prática pedagógica, objeto próprio da Didática, tem de ser pensada à luz de u projeto ético e político-social! que a oriente.
Isto exige partir da problemática educacional concreta. A didática fundamental procura partir da analise da prática pedagógica concreta e de seus determinantes:
"Neste seminário ficou evidenciado que esta reflexão ( o repensar da didática) passa por um aprofundamento de questões tais como: a natureza do saber escolar, a relação escola e sociedade, a competência do professor e suas dimensões, a neutralidade ou não da ciência e da técnica etc. (ID., p. 112).
" A questão básica que deve informar a revisão da Didática é a que se relaciona com a educação escolar das classes populares. Os índices persistentes da evasão e repetência nas primeiras séries do primeiro grau estão aí interpelando o conhecimento existente e suas possibilidades de contribuir efetivamente para a viabilização da aprendizagem dos conteúdos básicos do saber escolar pela maioria da população" (Id., p. 112-113)
A preocupação pela contextualização da prática pedagógica deve ser uma constante.
" A problemática relativa ao ensino de Didática não pode ser dissociada da questão da formação de educadores e esta, por sua vez, se articula com a analise do papel da educação na sociedade em que vivemos. Toda prática social é histórica e, neste sentido, se orienta para a dominação ou para a libertação. A educação, sendo uma pratica social, está vinculada a um projeto histórico. É somente a partir de uma visão contextualizada e historicizada da educação que podemos repensar a Didática e re-situa-la em conexão com uma perspectiva de transformação social, com a construção de um novo modelo de sociedade" (ID., p. 105).
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Outra característica que deverá estar presente é o esforço pela explicitação dos pressupostos. Procurará analisar as diferentes abordagens metodologias, explicitando seus pressupostos, o contexto em que foram geradas, a visão de homem, de sociedade, de conhecimento e de educação que veiculam.
"O conteúdo da didática envolve diferentes abordagens do processo ensino-aprendizagem. É necessário superar uma visão eclética da apresentação dessas diversas abordagens, sem que os pressupostos e implicações de cada uma delas sejam analisados.
É importante que o aluno entre em contato com as diferentes aproximações do processo de ensino-aprendizagem e seja capaz de descobrir suas limitações e contribuições, bem como adquirir a consciência de que nenhuma teoria esgota a complexidade do real e que o processo de conhecimento está em continua construção. É evidente que o modo como o professor trabalha a a perspectiva crítica está informado por sua própria opção ético-científica" (Id., p.111).
Na caminhada nesta direção, a reflexão didática deve ser elaborada a partir da análise de experiências concretas, procurando-se trabalhar continuamente a relação teoria-prática. Esta relação não deve ser entendida de forma dicotômica, quer dissociativa ou associativa (Candau e Lellis, 1983), e sim numa visão de unidade.
"O ensino de Didática durante muito tempo tem dado primazia ao estudo das diferentes teorias de ensino-aprendizagem procurando ver as aplicações e implicações destas teorias na prática pedagógica. Este modo de focaliza-lo está informado por uma visão onde teoria e prática são momentos justapostos. É necessário rever esta postura: partir da prática pedagógica, procurando refletir e analisar as diferentes teorias em confronto com ela. Trata-se de trabalhar continuamente a relação teoria-prática procurando, inclusive, reconstruir a própria teoria a partir da prática" (Candau,1984, p 110-111).
A busca de eficiência não é negada. Muito pelo contrário. Mas a própria eficiência pedagógica é repensada quando se parte do compromisso com a transformação social que exige práticas pedagógicas adequadas à maioria da população do país.
"É necessário afirmar o compromisso com a eficiência do ensino. Isto não significa interpretar a eficiência tal como o fazer as abordagens tecnológica ou escolanovista que de fato, jamais realizaram esta eficiência. Trata-se de rever o que entendemos por eficiência, perguntarmo-nos pela razão de ser e pelo a serviço de que e de quem esta eficiência se situa.
Mas a busca da possibilidade de que a maioria da população tenha de fato acesso ao saber escolar é indispensável. A isto chamamos de ensino eficiente.
A preocupação com a eficiência não deve ser entendida como a utilização de meios e técnicas sofisticadas. Pelo contrário trata-se de partir das condições reais em que se desenvolve o ensino em nossas escolas e buscar formar de intervenção simples e viáveis. Ao mesmo tempo, esta busca deve ir acompanhada da luta pela melhoria das condições de trabalho do profissional de educação" (Id., p. 113).
1.3. Questões prioritárias
Para que o movimento iniciado de revisão e reconstrução da Didática possa de fato avançar, há algumas questões que necessitam de um maior aprofundamento. A primeira delas diz respeito à especificidade da Didática geral:
"O papel da Didática na formação dos educadores não está, para muitos, adequadamente definido, o que gera indefinição do seu próprio conteúdo. Alguns tem a sensação de que, ao tentar superar uma visão meramente instrumental da Didática, esta se limita a suplementar conhecimentos de filosofia, sociologia, psicologia etc., passando a ser "invadida" por diferentes campos do conhecimento e perdendo especificidade própria. Outros consideram que a Didática deve ser entendida como um "elo de tradução" dos conhecimentos produzidos pelas disciplinas de fundamentos da educação e a prática pedagógica. Trata-se de conhecimento de mediação, sendo portanto importante que se baseie nas diferentes disciplinas da área de fundamentos: sua especificidade é garantida pela preocupação com a compreensão do processo de ensino-aprendizagem e a busca de formas de intervenção na prática pedagógica. A Didática tem por objetivo o "como fazer", a prática pedagógica, mas este só tem sentido quando articulado ao "para que fazer" e ao "por que fazer" (Id., p. 106-207).
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Intimamente ligada a esta questão está a da reconstrução do conteúdo da Didática, o que supõe a analise crítica daquele que é efetivamente veiculado pelos cursos de Didática.
" A busca de alternativas para o ensino de Didática supõe analisar o conteúdo habitualmente veiculado por esta disciplina e reconstruí-lo a partir da tentativa de compreender a prática pedagogica em suas diferentes dimensões e relações" (Id., p. 112).
Uma terceira questão diz respeito à articulação entre o pensar sobre a Didática e a Didática "Vivida":
" A construção destas abordagens alternativas de fato já está iniciada por aqueles que desde a sua própria prática, repensam o cotidiano escolar. Trata-se de promover um trabalho conjunto entre os professores de didática e os professor de 1 e 2 graus. É somente nesta interação e troca de conhecimentos que se produzirá um novo saber e fazer didáticos.
É importante articular o "pensar" sobre a Didática com a Didática "vivida" no dia-a-dia da prática educativa. Em geral, o que se pode ver é uma dissociação entre a Didática que é vivenciada, inclusive nas aulas de didática, e o discurso sobre o que deveria ser esta própria prática" (Id., 114).
O caminho está iniciado, mas a tarefa é complexa. Certamente não se trata de um esforço de indivíduos isolados e sim de uma tarefa coletiva. Este 2 seminário pretende ser mais um passo na direção desta construção de uma nova Didática fundamental.
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REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
CANDAU, V. M. (org). A didática em questão. Petrópolis, Vozes, 1984.
CANDAU, V. M. e LELLIS, I.A. A relação teoria-prática na formação do educador. Tecnologia educacional. Ano XII, N 55, 1983.